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Rapunzel da Semana – Joacine Katar Moreira – engajamento e personalidade.

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Olha a nossa Rapunzel da Semana é uma mulher culta e muito especial, adorei trocar ideias com ela e aprender também, é de uma educação e civilidade que faz a gente se sentir confortável e seguro, vamos conhecê-la.

Idade: 33 anos

Profissão: Investigadora (pesquisadora)

Onde nasceu: Guiné-Bissau

Onde vive:  Lisboa

Rapunzel Blog: Qual é sua prioridade na vida?

Joacine: A minha prioridade na vida é procurar realizar os sonhos um a um, sem pressas e com passos consistentes. Nem sempre consigo mas planeio as coisas de modo a que assim seja. A minha vida sem sonhos não seria a “minha” vida e digo que os sonhos são prioridade porque com eles em mente eu consigo fazer tudo o resto com mais empenho e mais vigor.

Rapunzel Blog:  Como se divide entre profissão e a vida de esposa?

Joacine:  Por “vida de esposa” eu entendo o facto de hoje sentir-me mais acompanhada do que antes, mas também de ter de negociar certas coisas que antes decidia sem pestanejar. Penso que encontrei no meu casamento a possibilidade de continuar a ser como sou e isso também faz com que até agora não tenha dificuldade em conciliar as diferentes esferas da vida.

Rapunzel Blog: Qual sua opinião sobre o racismo e intolerâncias religiosas?

Joacine: O racismo, a xenofobia e a intolerância religiosa são fruto do medo e de complexos de vária ordem. Têm muito a ver com os valores que são difundidos na sociedade, na comunidade e na família daqueles que o praticam e sendo o resultado dessas “construções”, os Estados têm um papel muito importante na sua desconstrução e condenação. Quer através de políticas, programas e projetos nas diversas áreas (não diria políticas de “inclusão” mas de “divulgação” de outras culturas, saberes e experiências). A inclusão deve incidir sobre uma maior representatividade e maior visibilidade de todos os grupos sociais nas instituições do Estado, e também através da legislação. Existir legislação que condene o racismo e todas as formas de discriminação, pode não acabar com o racismo mas pelo menos faz com que estes não sejam normalizados na sociedade, causando sofrimentos, segregação e limitando de forma mais ou menos explícita as pessoas que vitimiza.

Rapunzel Blog: Já foi vítima de racismo?

Joacine: Sim, já fui vítima de racismo. De formas mais diretas e também, como acontece muitas vezes em Portugal, de forma indireta e nada explícita, que por vezes só quem é o alvo sabe e sente o que se está a passar. É ao que chamo de “racismo subtil, mas letal”. No meu caso, por exemplo, sendo negra, mulher, imigrante (mesmo com nacionalidade passamos o tempo a explicar “de onde somos”, risos), e que gagueja quando fala, já desisti há muito tempo de procurar identificar qual foi o motivo ou base para determinado comportamento discriminatório. O que agora me preocupa é garantir que não seja vítima em qualquer circunstância em que consiga intervir. As pessoas por vezes nem sequer têm consciência de que estão a discriminar, dada a naturalidade com que as coisas tendem a ser encaradas.

É difícil por vezes sabermos de que é que fomos vítimas, mas sentimos que fomos discriminadas por algumas coisa. Exactamente! Tal como disse atrás, em Portugal as coisas tendem a não ser muito claras por vezes, mas até isso é feito de propósito para que nunca possamos ter “provas” do que sentimos. Mas penso que da nossa parte também temos coisas a mudar: perder o medo de viver o país e os locais como se estivéssemos em casa; apostar no ensino e na formação; reclamar, pedir e se necessário exigir o que pensamos ter por direito enquanto cidadãos contribuintes na sociedade portuguesa. Entrar nos Partidos políticos, intervir mais e não deixarmos de votar em quem defende os valores e os projetos em que acreditamos.

Rapunzel Blog:  A colonização portuguesa deixa marcas boas e más, falo isso com conhecimento de causa, a Guiné já se curou das marcas ruins e dos prejuízos sociais e econômicos da colonização?

Joacine: A colonização nunca é boa, porque trata-se de uma situação de dominação e de subjugação, mas sim, podemos hoje se calhar encontrar alguns resultados positivos disso na Guiné-Bissau, e o que me vem agora à mente é a urbanização das antigas cidades como Bissau, Bolama, Farim e Cacheu e o dinamismo que imprimiam à vida das pessoas e ao comércio, e que hoje estão infelizmente votados ao desleixo e à deteriorização total. O projecto colonial português para a Guiné nunca teve a importância que países como Angola ou Moçambique tinham. A implantação da colonização ocorreu já tarde e foi através da brutalidade e da violência sobre os autóctones, como testemunham as denominadas “Campanhas de Pacificação” de Teixeira Pinto. Os guineenses nunca se subordinaram facilmente às incursões coloniais, mas mesmo assim, o colonialismo conseguiu criar a divisão da sociedade, opor grupos étnicos e criar desconfianças entre estes, e fomentar a cisão entre os guineenses e cabo-verdianos (que eram, mais do que os portugueses, aqueles que verdadeiramente administravam o território em nome de Portugal), e isso perdura até hoje. A Guiné tem muitas feridas para curar, tanto as da colonização, como as da vitoriosa Luta de Libertação, assim como as decorrentes da construção do Estado. O país é uma jovem democracia e acredito que daqui para a frente as coisas serão diferentes do que foram, mas enquanto o sistema de justiça não funcionar estaremos sempre adiando as respostas para a saída da crise e da instabilidade política.

Rapunzel Blog:  Qual sua posição em relação ao feminismo a explosão de ações contra o machismo no mundo?

Joacine:  Eu considero-me feminista e penso que ainda estamos distantes de uma sociedade justa e igualitária em termos de género. Quanto ao que chama de explosões contra o machismo, penso que faltam verdadeiras explosões para pôr fim à violência contra a mulher, nomeadamente às violações que em vez de desaparecerem continuam a ser armas letais de subjugação e de coisificação da mulher pelo homem, e tantos outros crimes frutos do machismo.

E esta será feita quando as mulheres começarem a perder o medo e a exigir. As mulheres têm muita força de vencer e uma grande capacidade de resistência. O machismo é exatamente o medo desse poder da mulher e a tentativa, pelos vistos profícua e duradoura, de abafar e de silenciar as capacidades e as potencialidades que cada mulher tem.

Rapunzel Blog: Qual a importância da sua imagem para sua vida?

Joacine: Sou vaidosa e gosto de cuidar de mim e da minha imagem, mas não faço disso um grande objectivo de vida. Não recuso alguns prazeres em nome da beleza, mas procuro não exagerar. Penso que não precisamos de muito para estarmos bem cuidadas, quando podemos apresentar outras valências da nossa personalidade… e todas as mulheres têm muito da dar par

a além da sua imagem.

Rapunzel Blog:  Quais seus desejos para 2016?

 Joacine: Tenho tantos! Alguns realistas e outros nem por isso! Costumo escrever sempre o que quero para cada ano, tipo as cartas intermináveis que as crianças fazem ao Pai Natal e por vezes só por escrevê-los sinto-os já a um passo da realização.

Rapunzel Blog: Deixe um recado para os meus leitores e para as mulheres do mundo.

 Joacine:  Um recado: Arranjem sempre que puderem, e quiserem, um tempo a sós e sem telemóveis e outros entretenimentos eletrónicos; em que fiquem sozinhas e em silêncio em casa; ou saiam e passeiem sozinhas, ou viagem sozinhas nem que seja para a cidade vizinha – e possam contemplar tudo o que existe à volta como se não conhecessem nada do que lá está. Acredito que quem se suporta a si próprio, e consegue estar consigo, ganha um grande amor próprio e dificilmente será má companhia para alguém.

Que entrevista boa!

Deixem seus comentários e espero que tenham gostado.

Beijinhos

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